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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Névski, Paulista, Times Square e Dropsie

Ao mesmo tempo em que a menina de All Star, jeans e iPod nos ouvidos anda apressada pela calçada da vida, o chale azul claro da moça que está a passar fica preso no botão da bolsa feita de couro da outra que o solta com rara gentileza; a moça bonita, sozinha a andar, avista um amigo que não vê há tempos e como uma surpresa pula na frente dele para dar um abraço saudosista; a mendiga fedida enrolada em sacos plástico faz uma súplica aos céus para que ao menos uma moedinha caia em seu potinho de esmolas, e que por favor, “meu santo Deus!”, nesta noite não chova no seu papelão.

Enquanto os carros passam em um movimento frenético quase que indestrutível e as pessoas não se olham mais nos olhos, o ambulante de filmes piratas oferece aos seus possíveis fregueses uma promoção de “três por dez” para conseguir uns grandes trocados e voltar para sua terra de origem antes que o Rapa chegue; as madames de bolsas e casacos de pele animal passeiam empinadas, olham os óculos escuros na vitrine, e compartilham futilidades indizíveis sobre seus maridos empresários provedores do pão de cada dia de seus filhos que cultivam a infidelidade com a secretária de óculos e saia no corpo colada sem que elas saibam.

Em outra esquina um homem moribundo de terno e chinelos, grita pedaços da bíblia para que todos ouçam a palavra de um suposto Deus, que para ele existe e se personifica na forma de um cifrão dourado e vezenquando prateado; na frete da vitrine da livraria estão todos os lançamentos literários-contadores-de-histórias estampados a serem mostrados para a multidão que passa, e nem os percebe, nem os vê; como em uma crônica de João do Rio, um jovem-homem senta na mesa de um bar, pede uma dose de uísque e ali fica a observar toda, toda, toda essa melancolia.
  
(originalmente publicado em 08 de agosto de 2009 - há quase um ano -. Nessa ocasião, andava por aí com 'A alma encantadora das ruas' de João do Rio nas mãos. É que particularmente eu gosto tanto, mas tanto desse texto!)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Conversas de Boteco

Estava escrito: "aposte a sua vida, ela sempre ganha". Pensei alto, "talvez ela sempre ganhe mesmo, contra seja-lá-o-que-for". Ela ouviu e logo retrucou, "na verdade, é a frase de um amigo. 'Vou ver se aposto a vida no bingo, prá ver se ganho'. Filosofia de boteco, sabe?". E eu, continuando: "adoro essas filosofias. No jogo do bicho, será que a vida ganha?"- perguntei. Ela, explicativa: "não deve ter "humano" lá; eles contam apenas os irracionais, né". -"É, e às vezes mais racionais do que os próprios seres humanos (se é que podem ser chamados assim)". Uma pausa, uma respiração e,  -"Como diria João Antônio, 'cada um defende a sua e atira na do outro'. Eu apostaria. Apostaria só pra ver se realmente ela sempre ganha no jogo da vida, ou se o negócio é só apostar no bingo mesmo".

(originalmente publicado em 23 de agosto de 2009, quando terminei de ler uma edição do Malagueta, Perus e Bacanaço, que a dona do Baiúca Cultural me deu de presente).

domingo, 1 de novembro de 2009

22:30 - Um péssimo horário para morrer

“Tudo exatamente como planejei. Tudo exatamente como eu planejei. Sabe o que acontece agora que matei? Matarei. Matarei. Matarei. Matarei”.
Matanza – Matarei


Cansados, exaustos, impacientes, frenéticos, preocupados e ansiosos em uma sexta-feira (30), véspera de feriado em São Paulo. Feriado este, em homenagem àqueles que já se foram, aos chamados, finados, enfim. Uma espécide de celebração à nostalgia do fim.
Sentados, queriam chegar em casa, quando todas as luzes se apagaram com o trem ainda em movimento. De súbito, as portas abriram e as únicas luzes que restaram foram as da estação. A curiosidade por saber o que estava a acontecer foi imensa. 

Só sei do que vi
A música parou de tocar nos ouvidos; os pés ficaram inquietos; as mãos começaram a suar frio; as bolsas e mochilas foram apertadas ao corpo; as conversas foram deixadas pela metade; o medo do desconhecido e os outros sentidos foram atiçados. A única coisa que se fazia sabida era a de que todos ali queriam chegar em casa, sãos e salvos. De repente um sinal, e a luz-no-fim-do-túnel: “atenção! Estamos parados devido à presença de usuário na via na estação à frente, Anhangabaú”. Todos, mesmo que inconsciente, soltaram um coro que inspirou metade tristeza e metade indignação. Como pode um peixe vivo viver fora da água fria? Tsc, tsc.

Em respeito ao fim
Maria de Lourdes, 57 anos, resmungou o tempo todo: “não poderia ser pior? Trabalhei o dia inteiro, aguentei chefe na minha orelha, cobri o plantão de duas pessoas e ainda tenho que enfrentar isso para ir embora? É um absurdo! Pode até se matar, mas não estraga a vida dos outros, né?”.
O caos instaurou-se. De tanto que foi, o riso no rosto das pessoas era inerente à situação. Não havia mais solução. Nenhum trem passou e a estação ficou lotada. Só rindo para não chorar. Ficaram a mercê de uma voz que pronunciava de cinco em cinco minutos calmamente: “senhores usuários, estamos circulando com velocidade reduzida, devido a presença de usuário na via”. Às vinte e duas horas e trinta minutos de uma sexta-feira, véspera de feriado. Definitivamente, um péssimo horário para morrer. Mas quem é Deus, afinal, não é? Às vinte e três horas e quarenta minutos, a normalidade voltou. Claro, em respeito ao finado fim.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Espiritualidade

As pessoas paradas em pé escutavam suas próprias músicas, mergulhadas em seus únicos pensamentos. Enquanto ela, a menina -com cara de mulher- lia atentamente: "suponhamos que existisse no universo um planeta no qual fosse possível nascer uma segunda vez. Ao mesmo tempo, nos lembraríamos perfeitamente da vida que tínhamos levado na Terra; de toda experiência que teríamos aqui adquirido. Talvez existisse um planeta em que se nascesse uma terceira vez, com experiência de duas vidas já vividas".
Lembrou de sábado à noite, quando estava sentada na calçada de madrugada com amigos, ouvir um taxista de cabelos brancos dizer:  
-"a vida acaba aqui? Ué, então vamos matar, roubar, fazer de tudo, não é? É assim que eles pensam. É fácil demais usufruir de um pensamento desse. Para que fazer o bem, então? Se fosse assim, exatamente assim, não teria um porquê".
E continuou a ler: e, talvez, um outro planeta e outros mais, em que a espécie humana renasceria, subindo cada vez um degrau a mais (uma vida) nas escala do amadurecimento. Era essa a ideia que Tomas fazia do eterno retorno". 

"Nós, aqui na Terra (no planeta número um, no planeta da inexperiência), podemos ter apenas uma ideia muito vaga daquilo que acontece com o homem nos outros planetas. Teria ele mais sabedoria? Estaria a maturidade a seu alcance? Poderia atingi-la através da repetição?", e suspirou "...o otimista é aquele que acredita que a história humana será menos sangrenta no planeta número cinco. O pessimista é aquele que não acredita nisso".

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Des-gosto

Agosto passou. Finalmente!
Não. Finalmente coisa-nenhuma.
Agosto passou e deixou em Setembro
o (des)gosto de ter que passar por Agosto.
Está aberta a caça às Bruxas
e a tudo de sobrenatural.
Bichos escrotos, voltem para o esgoto.
Homens primatas, voltem para suas cascas.
E não. Não é Halloween. Ainda.
É só Agosto.
E o resto de um Des-gosto.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Verde que te quero ver

-Você já procurou o significado da palavra "verde" no dicionário?
-Não.
Ver.de
(ê) adj 2 gên 1. Diz-se da cor que resulta da combinação do azul com o amarelo; 2. da cor das ervas; 3. diz-se da planta que ainda tem seiva, não está seca, e do fruto que ainda não está maduro; 4. diz-se da carne fresca; 5. diz-se de uma qualidade de vinho ácido; 6. fig que ainda não se desenvolveu completamente; 7. que se refere aos primeiros anos da existência; 8. forte, vigoroso; 9. inexperiente; 10. tenro, mimoso, débil; sm 11. a cor verde.
-Agora leia como se não tivessem pontos, siglas, e veja o que acontece.
Verde
: diz-se da cor que resulta da combinação do azul com o amarelo, da cor das ervas. Diz-se da planta que ainda tem seiva, não está seca, e do fruto que ainda não está maduro. Diz-se da carne fresca. Diz-se de uma qualidade de vinho ácido, daquilo que ainda não se desenvolveu completamente, àquilo que se refere aos primeiros anos da existência. Forte, vigoroso, inexperiente, tenro, mimoso, débil. A cor verde!
-Nossa!
-É. Não parece uma poesia?

domingo, 23 de agosto de 2009

Conversas de boteco

Estava escrito: "aposte a sua vida, ela sempre ganha". Pensei alto, "talvez ela sempre ganhe mesmo, contra seja-lá-o-que-for". Ela ouviu e logo retrucou, "na verdade, é a frase de um amigo. 'Vou ver se aposto a vida no bingo, prá ver se ganho'. Filosofia de boteco, sabe?".
E eu, continuando, "adoro essas filosofias. No jogo do bicho, será que a vida ganha? Hahahaha. Não deve ter "humano" lá; eles contam apenas os irracionais, né. Que, aliás, às vezes são mais racionais do que os próprios seres humanos (se é que podem ser chamados assim).
Como diria João Antônio, "cada um defende a sua e atira na do outro". Aposte sua vida no jogo, só pra ver se realmente ela sempre ganha no jogo da vida.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Guarda-escritos


Tarso M. (Mostra Sesc de Arte 08)

sábado, 8 de agosto de 2009

Névski, Paulista, Times Square e Dropsie

Ao mesmo tempo em que a menina de All Star, jeans e iPod nos ouvidos anda apressada pela calçada da vida, o chale azul claro da moça que está a passar fica preso no botão da bolsa feita de couro da outra que o solta com rara gentileza; a moça bonita, sozinha a andar, avista um amigo que não vê há tempos e como uma surpresa pula na frente dele para dar um abraço saudosista; a mendiga fedida enrolada em sacos plástico faz uma súplica aos céus para que ao menos uma moedinha caia em seu potinho de esmolas, e que por favor, “meu santo Deus!”, nesta noite não chova no seu papelão.
Enquanto os carros passam em um movimento frenético quase que indestrutível e as pessoas não se olham mais nos olhos, o ambulante de filmes piratas oferece aos seus possíveis fregueses uma promoção de “três por dez” para conseguir uns grandes trocados e voltar para sua terra de origem antes que o Rapa chegue; as madames de bolsas e casacos de pele animal passeiam empinadas, olham os óculos escuros na vitrine, e compartilham futilidades indizíveis sobre seus maridos empresários provedores do pão de cada dia de seus filhos que cultivam a infidelidade com a secretária de óculos e saia no corpo colada sem que elas saibam.
Em outra esquina um homem moribundo de terno e chinelos, grita pedaços da bíblia para que todos ouçam a palavra de um suposto Deus, que para ele existe e se personifica na forma de um cifrão dourado e vezenquando prateado; na frete da vitrine da livraria estão todos os lançamentos literários-contadores-de-histórias estampados a serem mostrados para a multidão que passa, e nem os percebe, nem os vê; como em uma crônica de João do Rio, um jovem-homem senta na mesa de um bar, pede uma dose de uísque e ali fica a observar toda, toda, toda essa melancolia.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Coisas D'alma

Todas as músicas que se mostravam no toca-fitas, sabia de cor e salteado, sem errar o compasso e o tom de um refrão sequer. No caminho, perturbada e um tanto quanto intrigada com tal fato, a outra ao seu lado indagou:
-Escuta, como é que você sabe todas essas músicas?
Olhou para ela com um certo ar desimportante e continuou a cantarolar.
-Não é possível.
Cantarolava, cantarolava, cantarolava.
-Hein? Hã? Como é que é?
Desconfiada e insistente, continuou:
-Mas hein! Mo diga!
Cantarolava, cantarolava, cantarolava.
-É. Tá na alma, né? Só poderia. Eu sabia.
Continuou a cantarolar como se fosse a única resposta. E de fato: foi, era e é. Quem é capaz de compreender certas coisas d'alma?

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Agosto

Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro—e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

Caio F. - Sugestões Para Atravessar Agosto

Aaaaah! (suspiros)
Um brinde ao mês do Cachorro-Louco que chegou pra atarzanar! Timtim.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A quem eu sempre sei que vai ligar no meio da noite

Escrevo para você não sei porque. Mas é engraçado o que acontece entre eu, e sim, você. Nos conhecemos quando? Me perco na hora de lembrar, sei que faz tempo. Foi lá num desencontro da vida que você me achou, e eu sem saber estava a te procurar. Algo aconteceu, mas muita coisa mudou. Hoje, sei que é você que sempre vai me ligar no meio da noite. Eu sempre sei. E você sempre o faz quando eu estou pensando em ti. Chega a ser estapafúrdio, e me sinto patética. Coisas do coração são assim, patéticas. Mas é verdade. Entre tantos que me esquecem é você quem sempre lembra de mim.
“Desde que me escribiste, en aquel día tán claro y lejano, he querido explicarte que no puedo irme de los días, ni regresar a tiempo ai otro tiempo. No te he olvidado — las noches son largas y dificiles. Lo que más importa es la no-ilusión. La maílana nace”.
Nunca te disse isso. E acho que nunca vou dizer. Me vejo pensando em você, e, me calo ao atender o telefone e quando você diz: "vamos tomar um café?", e eu respondo, "ih, hoje não vai dar". Me culpo toda vez que um não sai da minha boca pra te presentear. Você, que é tão encantador. Paixão agora mudou de nome, meu bem. É isso o que sinto por você: encantamento. Estou é encantada com você, com a sua música, com as suas palavras, com o seu som, com o seu vento. E sei, que é sempre você que vai me ligar no meio da noite, nem que seja só pra dizer: "tenho saudades".

domingo, 5 de julho de 2009

Oh! Darling.

Algum tempo atrás não podia nem sequer escutar o primeiro acorde dessa música dos Beatles. Quando ela tentava aparecer, eu já ia logo apertando o botão, e passava para a música da frente. Não dava, era angustiante. Dois dias atrás, no sorteio de músicas do iTunes ela foi a escolhida e, sem perceber, quando ví, não apertei o botão e, como não tinha ninguém por perto, me dei o direito de cantá-la aos gritos: "Oh! Darling, please believe me...", e foi uma festa. Como uma redenção, me libertei do fardo e das náuseas que me visitavam ao escutá-la. Os Beatles não merecem isso, pensei comigo.
Você deve estar se perguntando o porque. É uma longa história, e não cabe dizer aqui tudo o que aconteceu. É passado morto. Eu tive a infeliz ideia de associar esta música a uma pessoa. Parecia que inconscientemente eu queria que ela estivesse dizendo as coisas que são ditas na música pra mim, como que pedindo perdão e dizendo que nunca teve a intenção de me machucar. E aí, catapuft!, a pessoa se foi (ou eu mandei ela embora?) e a música ficou, trazendo lembranças um tanto quanto perturbadoras. Agora, sonho em algum dia poder cantá-la aos berros, no palco de um bar, junto com uma banda e com um copo de Margerita na mão, olhando fixamente para você.

sábado, 4 de julho de 2009

Mercúrio na casa 9; casa dos sonhos

A sua mente necessita de mudanças constantes. É como olhar do alto e ver a vida numa perspectiva mais ampla; insights intelectualmente eficientes a respeito das questões pessoais mais simples. O que parecia enorme no passado de repente passa a parecer menor. É o efeito de ver as coisas de um nível mais amplo. Atração por bibliotecas e livrarias cresce nestes próximos dias, uma vez que a nona casa é chama de "a casa dos sonhos", Mercúrio está bem localizado aqui, conduzindo você para as esferas da filosofia e dos temas espirituais.
Consequentemente, esta é uma fase boa para ensinar, escrever e também para aprofundar-se mais em questões de ordem espiritual. Importante é notar que a consistência dos seus esforços precisa ser bem desenvolvida, para que você não sinta um desnecessário cansaço mental, justamente por conta desta súbita necessidade de estar sempre de movendo para lá e para cá. Tudo depende da sua habilidade (ou não) de se ater a detalhes da vida prática dentro dos sonhos.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Coração

Um coração é movido a emoções desesperadas e, constantemente, se sente apavorado por um compasso mais forte do que ele mesmo; solta um grito agonizante de silêncio toda vez que o compasso se faz acelerar para que ninguém consiga escutá-lo. Devias vir com certezas e não como é.
Um coração que é terno e diz as coisas mais simples e menos intencionais ao sentir-se ardente a cada batida que desaba em um soluço sem lágrimas, e que deveria ter a beleza das flores quase sem perfume; ser puro como a chama em que se consomem os diamantes mais límpidos e, entregar-se à uma paixão como aquela dos suicidas que se matam sem nenhuma explicação.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Números

Voltava andando pela rua a pensar no que teria para o jantar quando chegasse em casa. Parou no supermercado mais perto e pegou um litro de leite, seis pães, uma caixinha de ovos -daquelas com uma dúzia-, meio quilo de linguiça, um saquinho de um quilo de arroz e uma garrafa de um litro e meio de refrigerante. Dirigiu-se até o caixa que dizia, "até 10 volumes" com a cestinha de compras na mão e sacou o cartão de débito: "sem saldo", disse o menino do caixa. Para garantir, sacou o cartão de crédito e então: "não autorizada", disse novamente o menino do caixa. Olhou para as compras, guardou os cartões; olhou para o menino, para as pessoas na fila e pensou: "eles não têm culpa"; sentiu o julgamento dos olhares e a repressão dos cochicos ensurdecedores que vinham de dentro; ajeitou o casaco, afastou as supostas compras, checou se os cartões estavam bem guardados, olhou para a porta, levantou o nariz, virou as costas e foi embora sem dizer nenhuma palavra. Continuou seu caminho pensando apenas nos números.