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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Conversas de Boteco

Estava escrito: "aposte a sua vida, ela sempre ganha". Pensei alto, "talvez ela sempre ganhe mesmo, contra seja-lá-o-que-for". Ela ouviu e logo retrucou, "na verdade, é a frase de um amigo. 'Vou ver se aposto a vida no bingo, prá ver se ganho'. Filosofia de boteco, sabe?". E eu, continuando: "adoro essas filosofias. No jogo do bicho, será que a vida ganha?"- perguntei. Ela, explicativa: "não deve ter "humano" lá; eles contam apenas os irracionais, né". -"É, e às vezes mais racionais do que os próprios seres humanos (se é que podem ser chamados assim)". Uma pausa, uma respiração e,  -"Como diria João Antônio, 'cada um defende a sua e atira na do outro'. Eu apostaria. Apostaria só pra ver se realmente ela sempre ganha no jogo da vida, ou se o negócio é só apostar no bingo mesmo".

(originalmente publicado em 23 de agosto de 2009, quando terminei de ler uma edição do Malagueta, Perus e Bacanaço, que a dona do Baiúca Cultural me deu de presente).

sábado, 15 de maio de 2010

Utopia x Barbárie

Utopia é sonho. Barbárie é realidade. Utopia é sonhar. Barbárie é violência. Utopia é Thomas Morus. Barbárie é heavy metal. Utopia é Américo Vespúcio e Fernando de Noronha. Barbárie é revolução e guerra. Utopia é vida. Barbárie é morte. Utopia é antiga, velha. Barbárie é moderna, é nova, é fresquinha.

Utopia é a geração sonhadora de 1968. Barbárie é o ano 2000, o “Bug do Milênio” e as profecias de Nostradamus. Utopia é a mentira. Barbárie é a verdade. Utopia é a construção do muro. Barbárie é a queda do muro de Berlin. Utopia é socialismo. Barbárie é o neoliberalismo.

Utopia é sonho. Barbárie é a inauguração do séc. XXI. Utopia é tragetória. Barbárie é distinção. Utopia é revolução. Barbárie é golpe. Utopia é dormir. Barbárie é acordar. Utopia é escola de Frankfurt. Barbárie é Marshall McLuhan. Utopia é calmaria. Barbárie é tumulto de ideias. Barbarie é vida. Barbárie é sentir. Barbárie é instinto.

Utopia é bobeira. Barbárie é inteligência. Utopia é ordem. Barbárie é desordem. Utopia é navegar. Barbárie é ancorar. Utopia é ler. Barbárie é queimar. Utopia é governar. Barbárie é revolucionar. Utopia é sonhar com a sociedade perfeita. Barbárie é ligar a televisão.

E ah, era exatamente isso que eu queria dizer.

domingo, 9 de maio de 2010

QG de fantasias

Entre fagulhas, angústias e medos, algumas conversas chegam até ela como que propositalmente. (E, sinceramente, o meu jeito de escrever chega a ser cansativo às vezes. Estou farta dele. Já não há mais sobre o que tanto falar e eu ainda insisto em insistir). Deixando os floreios de lado voltemos às fagulhas angústias e medos: ela disse que tudo hoje faz muito sentido em relação aos acontecimentos passados. Enquanto  isso, o Legião Urbana contaminava o ambiente com a cocaína em forma de tristeza. Quis dizer, na verdade, que lembrava dos momentos de criança, em que se trancava no quarto para ouvir músicas em uma fitinha cassete especial em que tinha de um lado Black Sabath e do outro Janis Joplin, além dos momentos em que ficava em silêncio, deitava no chão e ia de pedaço em pedaço copiando as letras que Renato Russo cantava só porque também queria saber Faroeste Caboclo de cor como todo mundo.
Entre suspiros angústias e indagações, lembrou dele e olhou milésimas vezes para o celular esperando que ele emitisse algum som. E na-da. Nada. Ele não toca. Ele não liga. A outra a lembrou que uma vez, nas férias, quando sua avó já deixara esta parte territorial do mundo, que todos os amigos vinham chamá-la para sair, brincar e se divertir -coisas de criança, e ela recusava. Preferia ficar entre televisões, livros e a fitinha do Black Sabbath. Na maioria das vezes ficava em seu quarto, lugar que na época servia de QG para suas fantasias. "Changes" começou a tocar no rádio, e uma lágrima silenciosa caiu de seus olhos. Não deixou que ninguém visse. "I'm going throug changes...".
Pensou que tudo hoje faz sentido. É hoje o que é porque é o que sempre foi.  Nada mudou.  Ainda é a mesma. Ainda é a mesma menina que se tranca em meio a livros, fitas cassetes e lápis e papéis. Com a diferença de que agora amores e desamores desgarrados cheios de paixões sem saber o porquê a preenchem. E não sabe o porquê de se entregar a eles. Ao menos sente.

domingo, 7 de março de 2010

E como já disse uma vez, o Titãs

Sobre as ideias. E como achá-las.

Elas estão no chão: você tropeça e acha a solução!

domingo, 1 de novembro de 2009

22:30 - Um péssimo horário para morrer

“Tudo exatamente como planejei. Tudo exatamente como eu planejei. Sabe o que acontece agora que matei? Matarei. Matarei. Matarei. Matarei”.
Matanza – Matarei


Cansados, exaustos, impacientes, frenéticos, preocupados e ansiosos em uma sexta-feira (30), véspera de feriado em São Paulo. Feriado este, em homenagem àqueles que já se foram, aos chamados, finados, enfim. Uma espécide de celebração à nostalgia do fim.
Sentados, queriam chegar em casa, quando todas as luzes se apagaram com o trem ainda em movimento. De súbito, as portas abriram e as únicas luzes que restaram foram as da estação. A curiosidade por saber o que estava a acontecer foi imensa. 

Só sei do que vi
A música parou de tocar nos ouvidos; os pés ficaram inquietos; as mãos começaram a suar frio; as bolsas e mochilas foram apertadas ao corpo; as conversas foram deixadas pela metade; o medo do desconhecido e os outros sentidos foram atiçados. A única coisa que se fazia sabida era a de que todos ali queriam chegar em casa, sãos e salvos. De repente um sinal, e a luz-no-fim-do-túnel: “atenção! Estamos parados devido à presença de usuário na via na estação à frente, Anhangabaú”. Todos, mesmo que inconsciente, soltaram um coro que inspirou metade tristeza e metade indignação. Como pode um peixe vivo viver fora da água fria? Tsc, tsc.

Em respeito ao fim
Maria de Lourdes, 57 anos, resmungou o tempo todo: “não poderia ser pior? Trabalhei o dia inteiro, aguentei chefe na minha orelha, cobri o plantão de duas pessoas e ainda tenho que enfrentar isso para ir embora? É um absurdo! Pode até se matar, mas não estraga a vida dos outros, né?”.
O caos instaurou-se. De tanto que foi, o riso no rosto das pessoas era inerente à situação. Não havia mais solução. Nenhum trem passou e a estação ficou lotada. Só rindo para não chorar. Ficaram a mercê de uma voz que pronunciava de cinco em cinco minutos calmamente: “senhores usuários, estamos circulando com velocidade reduzida, devido a presença de usuário na via”. Às vinte e duas horas e trinta minutos de uma sexta-feira, véspera de feriado. Definitivamente, um péssimo horário para morrer. Mas quem é Deus, afinal, não é? Às vinte e três horas e quarenta minutos, a normalidade voltou. Claro, em respeito ao finado fim.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Espiritualidade

As pessoas paradas em pé escutavam suas próprias músicas, mergulhadas em seus únicos pensamentos. Enquanto ela, a menina -com cara de mulher- lia atentamente: "suponhamos que existisse no universo um planeta no qual fosse possível nascer uma segunda vez. Ao mesmo tempo, nos lembraríamos perfeitamente da vida que tínhamos levado na Terra; de toda experiência que teríamos aqui adquirido. Talvez existisse um planeta em que se nascesse uma terceira vez, com experiência de duas vidas já vividas".
Lembrou de sábado à noite, quando estava sentada na calçada de madrugada com amigos, ouvir um taxista de cabelos brancos dizer:  
-"a vida acaba aqui? Ué, então vamos matar, roubar, fazer de tudo, não é? É assim que eles pensam. É fácil demais usufruir de um pensamento desse. Para que fazer o bem, então? Se fosse assim, exatamente assim, não teria um porquê".
E continuou a ler: e, talvez, um outro planeta e outros mais, em que a espécie humana renasceria, subindo cada vez um degrau a mais (uma vida) nas escala do amadurecimento. Era essa a ideia que Tomas fazia do eterno retorno". 

"Nós, aqui na Terra (no planeta número um, no planeta da inexperiência), podemos ter apenas uma ideia muito vaga daquilo que acontece com o homem nos outros planetas. Teria ele mais sabedoria? Estaria a maturidade a seu alcance? Poderia atingi-la através da repetição?", e suspirou "...o otimista é aquele que acredita que a história humana será menos sangrenta no planeta número cinco. O pessimista é aquele que não acredita nisso".

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Des-gosto

Agosto passou. Finalmente!
Não. Finalmente coisa-nenhuma.
Agosto passou e deixou em Setembro
o (des)gosto de ter que passar por Agosto.
Está aberta a caça às Bruxas
e a tudo de sobrenatural.
Bichos escrotos, voltem para o esgoto.
Homens primatas, voltem para suas cascas.
E não. Não é Halloween. Ainda.
É só Agosto.
E o resto de um Des-gosto.

domingo, 23 de agosto de 2009

Conversas de boteco

Estava escrito: "aposte a sua vida, ela sempre ganha". Pensei alto, "talvez ela sempre ganhe mesmo, contra seja-lá-o-que-for". Ela ouviu e logo retrucou, "na verdade, é a frase de um amigo. 'Vou ver se aposto a vida no bingo, prá ver se ganho'. Filosofia de boteco, sabe?".
E eu, continuando, "adoro essas filosofias. No jogo do bicho, será que a vida ganha? Hahahaha. Não deve ter "humano" lá; eles contam apenas os irracionais, né. Que, aliás, às vezes são mais racionais do que os próprios seres humanos (se é que podem ser chamados assim).
Como diria João Antônio, "cada um defende a sua e atira na do outro". Aposte sua vida no jogo, só pra ver se realmente ela sempre ganha no jogo da vida.

sábado, 8 de agosto de 2009

Névski, Paulista, Times Square e Dropsie

Ao mesmo tempo em que a menina de All Star, jeans e iPod nos ouvidos anda apressada pela calçada da vida, o chale azul claro da moça que está a passar fica preso no botão da bolsa feita de couro da outra que o solta com rara gentileza; a moça bonita, sozinha a andar, avista um amigo que não vê há tempos e como uma surpresa pula na frente dele para dar um abraço saudosista; a mendiga fedida enrolada em sacos plástico faz uma súplica aos céus para que ao menos uma moedinha caia em seu potinho de esmolas, e que por favor, “meu santo Deus!”, nesta noite não chova no seu papelão.
Enquanto os carros passam em um movimento frenético quase que indestrutível e as pessoas não se olham mais nos olhos, o ambulante de filmes piratas oferece aos seus possíveis fregueses uma promoção de “três por dez” para conseguir uns grandes trocados e voltar para sua terra de origem antes que o Rapa chegue; as madames de bolsas e casacos de pele animal passeiam empinadas, olham os óculos escuros na vitrine, e compartilham futilidades indizíveis sobre seus maridos empresários provedores do pão de cada dia de seus filhos que cultivam a infidelidade com a secretária de óculos e saia no corpo colada sem que elas saibam.
Em outra esquina um homem moribundo de terno e chinelos, grita pedaços da bíblia para que todos ouçam a palavra de um suposto Deus, que para ele existe e se personifica na forma de um cifrão dourado e vezenquando prateado; na frete da vitrine da livraria estão todos os lançamentos literários-contadores-de-histórias estampados a serem mostrados para a multidão que passa, e nem os percebe, nem os vê; como em uma crônica de João do Rio, um jovem-homem senta na mesa de um bar, pede uma dose de uísque e ali fica a observar toda, toda, toda essa melancolia.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Coisas D'alma

Todas as músicas que se mostravam no toca-fitas, sabia de cor e salteado, sem errar o compasso e o tom de um refrão sequer. No caminho, perturbada e um tanto quanto intrigada com tal fato, a outra ao seu lado indagou:
-Escuta, como é que você sabe todas essas músicas?
Olhou para ela com um certo ar desimportante e continuou a cantarolar.
-Não é possível.
Cantarolava, cantarolava, cantarolava.
-Hein? Hã? Como é que é?
Desconfiada e insistente, continuou:
-Mas hein! Mo diga!
Cantarolava, cantarolava, cantarolava.
-É. Tá na alma, né? Só poderia. Eu sabia.
Continuou a cantarolar como se fosse a única resposta. E de fato: foi, era e é. Quem é capaz de compreender certas coisas d'alma?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Fundamental é mesmo o amor

Fiquei ali sentada durante um bom tempo só observando. Ele, o patrono da família não disperdiçava a chance de ouvir uma boa música. Colocou no toca-discos a Gal para cantar Tom Jobim. E como mágica, de dentro daquela moça saiu uma voz doce e penetrante. Ele, encantado. Enquanto os burburinhos, sussurros e risadas preferiram ficar com as futilidades ele ficou lá, sentado na poltrona cor de sangue, de olhos fechados, apreciando a voz e em pensamento, "o nome dela é Gal".
Do outro lado da sala, uma menina-mulher olhava com doçura para aquela cena; para aquele homem de 60 anos tão encantado e ao mesmo tempo tão rabugento com a vida. Ele sozinho, ela encantada. Por um momento pensou que ele estivesse de olhos abertos. Mas não, se enganou. Ficaram os dois ali, parados, sorrindo, ouvindo a Gal cantar o Tom e, sem que ninguém pudesse perceber, cantavam juntos bem baixinho: "fundamental é mesmo o amor é impossível ser feliz sozinho"...

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Considerações sobre o tempo

A palavra tempo vem do masculino. Refere-se a um continuum linear não espacial no qual os eventos se sucedem irreversivelmente. Possui uma duração limitada, fazendo assim, uma oposição à ideia de eternidade. Período. Época. É uma sucessão de anos, meses, dias, horas, envolvendo a sensação de passado, presente e futuro. Estação. Duração própria. Estado atmosférico; clima. Duração de cada parte do compasso.
Se não lhe fosse perguntado o que é o tempo, saberia o que é. Se tivesse que explicar para alguém, não saberia. O grande problema é que o passado não está mais aqui, o futuro ainda não chegou e o presente voa tão rápido que parece não ter extensão alguma. E que, aliás, se o presente só surge para virar passado, não daria pra dizer que o tempo é um caminho rumo a não-existência?
O tempo é o jeito que a natureza achou para não deixar que todas as coisas acontecessem de uma vez só. É uma ilusão. A distinção entre passado, presente e futuro, não passava de uma firme e persistente ilusão. Outros, não identificados, acreditam que não há fluxo. Os eventos, independentemente de quando ocorram, simplesmente existem. Todos existem. Eles ocupam para sempre o seu ponto particular no espaço-tempo. E você?

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Cada macaco no seu galho?

Ontem a noite tive uma conversa um tanto quanto inusitada com o porteiro do turno da noite do prédio em que moro:

Porteiro: Ô, Andréa! Tava conversando com a sua mãe, lembrei que quando eu entrei aqui você tinha dois anos só. Tá crescida, né!
Eu: É mesmo. Faz tempo, hein?
Porteiro: É, pra você ver...
Eu: É.
(pausa)
Porteiro: Mas e aí, eu nunca mais te ví. Você nunca mais chegou tão tarde como chegava...
Eu: É, pois é. Naquela época eu tinha namorado e chegava bem tarde mesmo.
Porteiro: Ah, então por isso que não ví mais o Alemão por aí? Botou ele pra correr, é? (risos)
Eu: É. Não tava dando certo mais.
Porteiro: Ah... Tá certo, quando é assim, não dá mesmo. É melhor cada um ir para um canto.
(pausa) Sabe, o fulano de tal disse que viu ele outro dia no negócio lá, de... de, concursos, lá, não sabe?
Eu: Nossa, quem?
Porteiro: Ah, o moço do apartamento número tal.
Eu: Vish. Eu, hein? Mas o fulano nem sabia quem era!
Porteiro: Ah, mas as pessoas sabem, Andréa. As pessoas sabem. (risos)

Cada vez mais tenho a certeza de que nenhum macaco cuida do seu próprio rabo. E se cuida, adora dar uma bisbilhotada no do outro. Quem nunca o fez que atire a primeira pedra. Pois bem! Descobri que as pessoas vigiavam os meus passos, exageradamente falando, desde o dia que estava saindo do prédio junto com uma velhinha que só conhecia de vista me perguntou, "e o seu broto? Nunca mais ví! Ah, ele mora pros lados do meu filho, você sabia?".
Você não teria medo? Eu tive. E agora o porteiro. Primeiro ele sabia a que horas eu chegava e a que horas eu saía. Segundo, ele sabia que meu ex-namorado fazia cursinho para concursos públicos. Terceiro, ele ficou sabendo disso porque foi alguém que eu nem sei quem é sabia e contou para ele. Meu Deus! Queria entender da onde saem essas informações, e como é que funciona a astúcia das pessoas para ter essa relação com a vida alheia. Porque afinal de contas... Como o próprio porteiro disse, "as pessoas sabem", elas simplesmente sabem.

domingo, 19 de abril de 2009

Todo o tempo do mundo

Eu vi quando você me viu, seus olhos pousaram nos meus num arrepio sutil.
Eu vi, pois é, eu reparei!
Já lhe disseram uma vez que, “os olhos que não te enxergam, vão te enxergar, espere pra ver”, e não levou muito em consideração. Achou bonito, mas ao mesmo tempo sempre acreditou que não é assim que acontece, e não ia mudar sua visão assim, tão rápida.
Você me tirou pra dançar, sem nunca sair do lugar

Sem botar os pés no chão, sem música pra acompanhar
Acordou um dia, fez tudo o que tinha que fazer em casa: lavou a louça, arrumou a cozinha, colocou as almofadas do sofá da sala no lugar, desligou a televisão que havia dormido ligada, colocou o telefone no lugar, arrumou a cama, a bagunça dos papéis no quarto, abriu as janelas, deixou o sol entrar, colocou qualquer roupa e desceu para comprar o caderno de notícias do dia.

Foi só por um segundo, todo o tempo do mundo, e o mundo todo se perdeu.

“Bom dia, menina”, ouviu da faxineira do prédio; um longo ‘booom dia, tudo bem?’ recebeu do porteiro; e um ‘dia’, tímido da moça que passava para dentro do gradil com suas compras pesadas na mão. Saiu do prédio e parou na calçada fora do espaço da faixa de pedestres, claro, e esperou os carros pararem e deixarem passar.

Eu vi quando você me viu, seus olhos buscaram nos meus o mesmo pecado febril.

Eu vi, pois é, eu reparei!

No momento em que seu pé se pôs no asfalto, em meio a mais cinco pessoas que estavam no mesmo espaço, atravessando a rua num fluxo contrário, um olhar cruzou com o dela. Era alto, loiro, magro, tinha os olhos da cor do mar. Os olhares se cruzaram em um fragmento de segundo, e fez crescer um turbilhão.
Você me tirou todo o ar pra que eu pudesse respirar
Eu sei que ninguém percebeu, foi só você e eu.
Vestia uma calça jeans surrada e um all star preto, como o seu. Uma camiseta branca por baixo de um suéter verde musgo, e carregava traços fortes, de homem. Andava despojado, e não levava nada nas mãos. Ele olhou, e por isso ela também olhou. Olhares compenetrados, de esguio, tímidos, interessados. O tempo parecia ter desacelerado.
Foi só por um segundo, todo o tempo do mundo, e o mundo todo se perdeu
Ambos continuaram a andar. Ele continuou para lá, e ela para cá rumo à banca de jornal, rindo à toa no meio da rua, preenchida por emoções que não soube controlar no meio do vazio que habitava dentro de si, e deixou sua imaginação criar asas. “Oi, tudo bem? Tem o ‘Estado’ de hoje ainda?”, “Tem. Mas escuta, porque você sempre compra jornal de dia de semana? É tipo quando ‘dá na telha’?”, “Ah, é sim, compro só quando me interessa”. Depois desse dia passou a comprar o jornal todos os dias.
Ficou só você e eu.
(Quando você me viu).

domingo, 12 de abril de 2009

Inesquecível

Cheguei a desacreditar quando ouvi os primeiros acordes da guitarra e as primeiras batidas das baquetas nos tambores. Antes, o ‘Doutor Pecado’ tinha feito uma tentativa de animar a multidão. Foi boa, mas não deu muito certo. O esperado de verdade não era o coro de “Futebol, Mulher e Rock’n Rol, meu deus como isso é boml”. Nenhuma música melhor pra anunciar a chegada do Kiss ao palco, tirando o futebol, claro.

No momento em que tocava de fundo, ‘wont get fool again’, do The Who, uma bandeira enorme despencou do alto para dizer, “preparem-se é daqui a muito pouco tempo que vai começar o melhor show das suas vidas”. E com todo o direito do mundo, eles, os mascarados, entraram no palco com dignos estouros para começar o show em São Paulo da turnê, ‘Alive/35’, levando 30 mil pessoas ao êxtase.

Mais inteiros, completos, mascarados, fantasiados e maquiados do que nunca, o quarteto de Paul Stanley (um tanto quanto rouco), Gene Simmons (sempre 'o' personagem), Eric Singer e Tommy Thayer levou uma multidão ao delírio com os primeiros acordes de “Deuce”, seguidas de “Strutter” e de Simmons cuspindo fogo (cuspindo fogo!) em “Hotter Than Hell”.

O ápice do show foi quando Paul Stanley começou a tocar a introdução de “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin e fez um suspense descabido ao cantarolar, “there’s a lady who is shure, that all the glitter is gold…”, “Toco essa?”, perguntou. Naquele momento, juro, se eles realmente tocassem essa música eu poderia morrer feliz no dia seguinte. Mas isso não aconteceu, e depois da brincadeira de (muito) mal gosto, veio a empolgante “Black Diamond”.

Embora a meteorologia tivesse previsto muita chuva, a única que de fato aconteceu foi de fogos, de papéis prateados em cima de todas as cabeças, e um vôo até o outro lado do Anhembi do Paul Stanley no solo da “Love Gun”. Eu gritava, cantava, pulava, e não estava nem aí se eu não conseguia ver o palco, se o meu joelho estragado fosse ficar mais estragado ainda, e se eu iria ficar sem voz no dia seguinte na hora de cantar “Rock and Roll All Night”, “I Was Made For Loving You” e “Detroit Rock City”.

Meus olhos brilhavam e meu coração palpitava descontroladamente. Foram as três horas mais rápidas da minha vida em meio a pessoas maquiadas como os verdadeiros maquiados, a músicas, fogos, chuva de papéis prateados, pessoas queridas ao meu lado, gargantas se esgoelando de tanto cantar e de gritar "cadê os peitoooos?".

No dia seguinte quando vinham me perguntar, “como foi o show?”, eu não conseguia contar como se aquele momento realmente tivesse acontecido, e apenas dizia, ‘foi inesquecível’. Podem falar o que for, mas o Kiss é o Kiss, sempre. Foi demais.

*Alguém! Uma máquina do tempo, por favor, eu preciso de uma!
*História número 23445435 para contar para os filhos!

sábado, 11 de abril de 2009

Adeus você

Era tão bom estar em suas mãos, passar na frente daquele lugar só porque sabia que você estaria lá.
Era tão bom estar em suas mãos, esperar telefonemas e mensagens só para ouvir sua voz, ou para ler algo que vinha de você enquanto tentava dormir a noite, acabando com pacotes de chocolate e tomando café para não dormir, só a esperar você.
Era tão bom estar em suas mãos, olhar pra você e saber que alguma coisa você fazia comigo mesmo sem saber, que deixava minhas pernas a tremer.
Era tão bom estar em suas mãos, jogar conversa fora na mesa de um bar com os amigos, dar risadas em meio a cervejas enquanto eu tagarelava sobre mim, sobre livros, paixões, pessoas e afetos e você sobre o futebol, artes, música, poesia e sua vida.
Era tão bom estar em suas mãos, esperar você chegar e dar chilique porque não chegou na hora que tínhamos combinado.
Era tão bom estar em suas mãos, me sentir segura ao entrelaçá-la à minha no meio da rua em meio a tantas pessoas, e sentir minhas bochechas corarem ao dizer que era você, só você pra mim; e ser correspondida com um sorriso sincero acompanhado de um beijo e um abraçado demorados.
Era tão bom estar em suas mãos, discutir política e criticar sua visão completamente deturpada em relação a algumas coisas, e brigarmos por isso.
Era tão bom estar em suas mãos, sentir seu corpo quente na minha pele, e, passando a mão pelos seus cabelos ouvir você sussurrar palavras que não são permitidas dizer à luz do dia, e depois, deixar a luz entrar enquanto sua mão encontrava a minha para um delicado “bom dia”.
Era tão bom estar em suas mãos, e sentir o seu abraço apertado quando eu me desesperava e chorava compulsivamente porque algo tinha saído da normalidade.
Era tão bom estar em suas mãos, e discutir, brigar, gritar, por coisas que para você não tinham nenhum sentido e que para mim faziam toda a diferença, e te ver dando meia volta em minha direção depois de virar as costas e não ter dito coisa com coisa.
Era tão bom estar em suas mãos, e ver o seu sorriso quando me olhava, com tamanha paixão, e crer que o que via em mim, era realmente o que eu era.
Era tão bom estar em suas mãos, ir ao cinema na sessão da meia noite no pior filme possível, encher a cara de coca-cola light e passar as mãos melecadas no seu rosto de tanta manteiga que tinha na pipoca e rir como duas hienas descontroladas.
Era tão bom estar em suas mãos, ficar em casa aos domingos de pijama junto com você, e brigar pelo controle da televisão.
Era tão bom estar em suas mãos e saber mais de você do que muitas outras pessoas que te conheciam a mais tempo do que eu, e saber dizer a palavra certa, na hora certa, junto com um beijo e um abraço caloroso pra te confortar no meu peito e dizer que vai ficar tudo bem.
Era tão bom estar em suas mãos, e ler quantas vezes fossem necessárias as cartas que foram mandadas no começo de tudo, só pra relembrar.
Era tão bom estar em suas mãos, e ver a sua preocupação em cuidar de mim, em saber se eu estava bem quando uma simples dor de garganta veio acompanhada de uma febre me atacar, e me deixar de cama, e ver você oferecer a sua blusa pra mim todas as vezes que eu estava sem a minha.
Era tão bom estar em suas mãos, e ver que além dos meus pais você se preocupava com o vento que batia nas minhas costas.
Era tão bom estar em suas mãos. Tão, mas tão bom que delas nunca desejei sair. Tão bom que você, você mesmo, você com quem eu falo: eu nunca soube quem foi, e acredito firmemente que a não ser em meus desejos e devaneios de-menina-sonhadora-que-sou, nunca de fato existiu.
Adeus você, adeus.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

A Pólis do Paraíso

Andei como uma condenada naquele dia. Só de lembrar minhas panturrilhas se estremecem de fadiga: foram uns exagerados 10 km a pé, depois de descer do Jardim das Palmas-Hospital das Clínicas na altura do número 2.600 da Av. Giovanni Gronchi. Olhava tudo com muita discrição, e ao mesmo tempo com uma ansiedade e um receio pulando por dentro. Nunca havia entrado em uma favela, e lá estava Paraisópolis a me esperar.
Com um gravador na mão, a utopia na cabeça, e mais três amigos, fui andando e registrando com meus olhos: casarões com muros altos, ruas desertas, carros importados, muito dinheiro, portões de alta segurança, e uma bifurcação. Conforme subíamos a rua, a realidade dentro de outra realidade se mostrava. O mundo das ruas e não das casas, da malandragem e não da maquiagem, da pobreza e não da riqueza, da luta e não da perda, da vida e não da morte, de milhares e não de poucos, do povo e de gente como a gente.
À frente um bar, uma mesa, um senhor, uns olhos vermelhos, uma garrafa, uma criança, e quatro estudantes andarilhos de jornalismo. Ao lado uma casa, uma porta de vidro, várias roupas, uma máquina de costura e uma senhora: “Com licença! Por favor, a senhora sabe onde fica a Associação de Moradores?”, “Sim. No final dessa rua”. Mal sabíamos que o final da rua estava bem longe do bêbado e da costureira.
A rua parecia nunca chegar ao fim, e o sol e o calor também não. A garrafinha de água já estava vazia, as pernas já estavam cansadas, os corpos suados, a paciência persistia, e o tempo já tinha se esgotado. Mas continuávamos. Uma ‘Casas Bahia’ gigante, um supermercado, um ônibus laranja estacionado, uma rua estreita, e um moço: “Por favor, a Associação de Moradores é por aqui mesmo?”, “Olha, moça, não sei, mas continua reto que você chega lá!”.
Mais adiante, um lugar encantador, e um devaneio sonhador apareceram. Havia um carro antigo parado em sua frente, parecia um opala e era bege, um branco sujo para melhor dizer. A Marcenaria que-não-me-lembro-o-nome, construía-se envolta de uma árvore grande e gorda. Cheia de penduricalhos, além de marcenaria era um antiquário. Colorido, estreito e curioso, havia também um senhor, uma cadeira, e uma cigarrilha sentados à porta. Bateu uma vontade enorme de entrar, conhecer e conversar, mas me contive. Ficou pra próxima, a visita ao senhor que dei o nome de Manuel.
Continuávamos. Encontramos numa esquina com um familiar: “olha, não parece o cachorro do Ensaio Sobre a Cegueira?”. Sim, parecia. Parecia não, era igualzinho. Bege, descabelado e perdido. Só não havia ninguém chorando na porta da vendinha em que se encontrava para poder mostrar realmente a que veio. ‘Descabelado, o cachorro enxugador de lágrimas!’.
Depois de guardar o gravador, esquecer da utopia, continuar com três amigos, não ter mais uma garrafinha cheia de água, estar com o desodorante vencido, com as bochechas coradas do sol, passar por um bêbado, uma criança e uma costureira, por subidas e descidas, por ruas estreitas, por um ônibus laranja solitário, por uma ‘Casas Bahia’, pela marcenaria do seu Manoel e pelo ‘Descabelado’ chegamos onde tínhamos que chegar.
Só aí, já dava pra escrever uma história e tanto. Sentamos, e ficamos por um bom tempo na companhia de João Antônio, Zélia Gatai, Graciliano Ramos, Tina Modotti, Gabriel García Marquez, e de livros com títulos do tipo, “O Sol é Para Todos” e “A Sangue Frio”. Sentar e ficar entre livros naquele momento, foi a glória, acredite.

quarta-feira, 25 de março de 2009

de um 'quê' sentimental

O que sinto não tem nome,
O que sinto não tem cor,
O que sinto não tem jeito,
Mas tem um dono.
Um. Dono.
No singular, no masculino.
O que sinto não é amor,
O que sinto não é vermelho,
O que sinto não é um beijo.
O que sinto é apenas sentido.
Sem. Sentido.
Não se faz sabido.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Beija-flor

Um dos tantos dias que entrei na estação de metrô para ir rumo ao meu único ofício no momento, -a faculdade- vi um Beija-Flor. Era um dia triste, eu me lembro. E sim, um Beija-Flor.
Quando eu estava para colocar o pé no degrau da escada rolante, olhei pra cima como de costume. Grudado na cúpula transparente, lá estava ele, debatendo as asas. Como é que ele foi parar ali?, pensei.
Olhei e sorri sozinha enquanto a escada me levava para baixo. Senti uma satisfação enorme, afinal, em uma metrópole como São Paulo, não é todo dia em que se vê um Beija Flor, mesmo que preso dentro da cúpula de uma estação.
Vira e mexe no meu caminho cruzam borboletas, libélulas, abelhas e agora beija-flores. Aparecem rapidamente sempre debatendo as asas como que ansiosos para nos contar algo que está por vir. Dizem que é sorte quando algum cruza o nosso caminho. Dizem que é um bom sinal, dizem. Nada que seja fruto da natureza e que seja tão lindo e tão mágico possa trazer algum mal a alguém.
Segui o meu rumo um pouco mais alegre, e pensei se ele -o beija flor- conseguiria sair de lá, pobrezinho. Não sabia que vento o tinha levado para lá, só sabia que o lugar dele não era ali, e que ele tinha colocado mais colorido no meu dia, muito mais.
Com toda certeza ali por algum motivo estava.
*Assistiu 'O Curioso Caso de Benjamin Button'? Não? Vá assistir que você entenderá.
Nunca derramei tantas lágrimas dentro de um cinema. Juro, foi de soluçar. É lindo demais.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Um animal, um instinto e eu

Um sol que não deveria ter raiado, um dia que poderia ser deletado.
Uma atitude que não deveria ser tomada, uma palavra que não deveria ser falada.
Uma lágrima que não deveria ter caído, uma adrenalina que não deveria ter exaltado, um cansaço que não deveria ter existido.
Um mal que deveria ter sido cortado, um conflito que não deveria ter acontecido, um instinto que não deveria ter aparecido.
Um ferimento que não deveria ser aberto, um arranhão que não deveria ser dolorido, um inchaço que não deveria ter sido. Um desgaste que não merecia, um nervoso que não podia, um choro que não mostraria.
Uma caminhada que faria, uma risada que daria, um sorriso que existiria. Um mal-humor que deveria purgar alegria. Uma emoção que não havia de ser sentida.
Uma dor latejante.
Um gemido purgante.
Uns arranhões.
Uns hematomas.
Um animal, um instinto e eu.
E no dia seguinte, um receio constante.