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sábado, 22 de maio de 2010

Felicidade sim

_O que é isso?
_Depois eu explico!
_Não, explica agora!
_Tá, é um maço de cigarro.
_Ah, é? E desde quando você fuma?
_Desde ontem, quando eu comprei esse maço. Ah! 
Eu estava nervosa e com vontade, me deixa.
_Ah. - levantou-se bruscamente e foi para o outro lado.

sábado, 24 de abril de 2010

Sobre vagalumes e serpentes

Essa é a história da serpente que desceu do morro para procurar um pedacinho do seu rabo.

Ei, você também é um pedacinho do meu rabãããão!

- Quando pequeno, cantava em roda com os colegas de escola esta musiquinha. Quem fosse apontado pela líder da brincadeira no momento do "Ei, você também é um pedacinho do meu rabãããão!", ia para o meio da roda e tinha que ficar ali até o fim da brincadeira ou simplesmente saía da roda, e abria um espaço para que outras pessoas dessem as mãos.

- Engraçado, né? Às vezes me vem à cabeça esta brincadeira, e penso que nós sempre procuramos um pedacinho do nosso rabo. Procuramos, procuramos. E, como na música, que é cantada diversas vezes, nós pegamos, eliminamos, e partimos para outra eliminação até sobrar apenas um. Este, que deveria ser o único pedaço do rabo que faltava.

- Mas sabe, acredito que é também uma questão de querer. De querer procurar. O procurar pelo rabo, pela metade da laranja, pelo elo perdido, por todas as coisas que fazem falta aos seres ditos humanos. Que seria deles sem a procura eterna por algo que não se sabe o que é, e nem o que pode vir a ser? Apenas se vive. E às vezes, se corre atrás do pedacinho do rabo.

- O grande problema é quanto o outro invade. É aquela história: eu também sou uma serpente, eu também tenho um rabo, e eu também quero achar o meu pedacinho. Sabe a história do vagalume e da serpente? "Eu não brilho e tú não brilharás também". Compreende? Aí já rende outra história...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Enquanto um se queixa, o outro se identifica

Dois amigos conversam num dia chuvoso, bem perto do fogo:

-Depois de tudo, ficou um silêncio e eu disse a ela que estou acostumado a ver as pessoas irem embora ou morrerem, e pô, ela ainda faz isso comigo? Não dá. Não aguentei.
-É. O mais irônico é que eu sinto a mesma coisa em relação às pessoas. O que fazemos de errado que elas simplesmente... se afastam, nos desprezam ou, são desleais?

E o outro, encolhido, respondeu após um profundo suspiro:
-Algumas pessoas são predestinadas a viver sozinhas. É o que eu acho. "A mim me basta eu",  máxima se torna verdadeira.
-É, tens razão. Talvez a solidão não seja tão selvagem e perturbadora quanto aparenta. Não me permito racionalizar as coisas, mas às vezes é só o que me resta.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Na Espera

Em 1988 existiam 376 registros com seu nome no Serasa, sim, aquele limbo para onde levam os nomes de pessoas inadimplentes. Logo, tudo o que ele fazia tinha de ser comprovado. Não era nenhum daqueles 376, apenas teve a infelicidade de ser batizado com o mesmo nome, e ser filho de uma mãe Alves e um pai Silva. Até hoje alguns equívocos ainda acontecem.
Hoje, no ano de 2009, seu José Alves da Silva, um velhinho de 77 anos, tem câncer de pele e quer se curar. Buscou os serviços do Estado e, novamente, por infelicidade do "maldito" nome -como o mesmo diz-, sua biópsia fora trocada com a de outro José Alves da Silva, que, por sinal, tem câncer de pulmão e não de pele.
O conheci na sala de espera, enquanto Margarida salvava Maria. Ele contou sobre o Serasa, sobre a troca da biópsia e disse que estava ali para resolver pela quinquagésima vez esta história. Indignado, disse que se o Estado, os médicos, e os funcionários daquele hospital não sabiam, o câncer estava a crescer e não ia esperar a boa vontade de outros. Mais brasileiro do que sr. José Alves da Silva, impossível!

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O dia em que Margarida fez renascer Maria

E o meu jardim da vida
Ressecou, morreu
Do pé que brotou Maria,
Nem Margarida nasceu.

No dia 21 de junho de 1958 nascia do ventre de Yolanda, Maria Auxiliadora. As bocas faladeiras contam que cabia numa caixinha de sapatos, de tão pequenina. Inicialmente não era um bebê, e sim um fibroma.
Yolanda, nos seus 45 anos, não sabia que estava grávida da sua sexta filha, e tratou dos sintomas anormais que sentia com remédios fortes. Depois de sete meses, um sábio médico interiorano descobriu que o que tinha dentro dela era um bebê e não um fibroma como outros diziam. A família toda se manifestou em promessas: “minha Nossa Senhora Auxiliadora, se esse bebê vingar, darei teu nome com orgulho a ela”.
Maria Auxiliadora nasceu, recebeu o nome da santa, cresceu, e aos 10 anos de idade tomava sangue de Boi quente para não ficar 'desnutrida'. Teve 4 pais e 3 mães, que obrigavam-na a estudar e a comer tudo o que tinha no prato de comida. Namorou, estudou, riu, chorou, casou-se, e teve uma filha. Formou-se, separou-se, trabalhou, trabalhou, trabalhou e trabalhou.
De tanto trabalhar para os outros, Maria se esqueceu de si mesma. Digno de uma “Auxiliadora” dava-se para os outros, mas não se dava para si mesma. Maria, sempre foi uma pessoa que se expressou por meio do corpo, e, como dizem os que acreditam na psicossomática, todas suas mágoas também se transfeririam para o corpo, e foi o que aconteceu. Até que um dia, Maria conheceu Margarida.
Margarida, serena como a própria flor, fez Maria entrar em contato consigo mesma e sangrar. Sangrou na testa, tudo o que precisava, por meio de um corte profundo que foi feito para tirar dali o que não lhe pertencia. Um hematoma de mágoas passadas, que já não lhe adiantava em nada. Depois de duas horas, Maria saiu acabada. E, como tudo o que é perfeito é acabado, no dia 16 de Abril de 2009, Maria nasceu denovo. E dessa vez, não cabe apenas em uma caixinha de sapatos, mas sim, dentro de si mesma.