segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Enquanto um se queixa, o outro, se identifica

-E eu disse a ela: estou acostumado a ver as pessoas irem embora ou morrerem, e você ainda faz assim comigo? Não dá.


-É. O mais irônico é que eu sinto a mesma coisa em relação às pessoas.
O que faço de errado que elas simplesmente... vão embora?


E o outro retrucou:
-Algumas pessoas são predestinadas a viver sozinhas, e a máxima é imposta e se torna verdadeira: "a mim, me basta eu". 


-É. Tens razão. Talvez a solidão não seja tão selvagem quanto parece. Odeio racionalizar as coisas, mas às vezes é só o que me resta.

domingo, 13 de dezembro de 2009

é a velha história da cobra e do



vagalume

eu não brilho e tu não brilharás também

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Adoro a lógica dos sonhos;

adoro a forma com que se desenrolam.

Mas dificilmente extraio ideias dos sonhos.

Tiro-as da música ou dos lugares por onde ando.

-Lynch

sábado, 28 de novembro de 2009

Nada é por acaso

Este blog, como o próprio nome diz, Anotações, tem como objetivo traduzir por meio de pequenas anotações fragmentos que atraem sua autora no dia a dia. Para ela, o cotidiano é  cheio de significados, e é impossível traduzi-lo cem por cento, e ainda isentá-lo de opinião e poesia.  É quase que impossível. Toda a graça e magia acontece assim, nas pequenas coisas.
Ontem enquanto a autora deste singelo blog contava para um amigo sobre sua vida, outro que também estava na conversa falou: "mas nossa, só problemas, hein?". De certa forma, esta fala a fez acordar. Em meio a tanta tempestade o céu ainda não clareou, ou, ao menos, ela ainda não a enxergou -o que acredita ser mais provável-.
Certa vez ouviu dizer que nada acontece por acaso, e sempre acreditou nisso. Dias atrás recebeu um telefonema dizendo que uma pessoa tinha falecido. Foi no mesmo dia em que a atriz Mara Manzan também passou para o lado de lá. E logo disse, "já sei, a Mara Manzan", e a pessoa do outro lado retrucou, "Não. Sabe o senhor que você sempre via no metrô, e sempre quis conversar com ele, marido da fulana?",  e ela, "Não, não acredito. Ao menos não quero acreditar. Eu vi ele ontem".
Ele, professor de literatura, tinha os cabelos brancos e compridos até a cintura. Usava um óculos grande, daqueles bem antigos e era alto, bem alto, parecia um Mago. Cruzava com ele várias vezes na rua, no metrô,  moravam muito próximos. Nunca soube quem ele era, só o básico: professor de literatura.  Sempre teve vontade de trocar alguns miúdos com ele, mas nunca se atreveu a falar um  simples "olá". Pelo o que falam,  ele morreu tranquilamente. Chegou em casa, sentou na poltrona e ali ficou. Seu semblante era de felicidade, parecia sorrir.
Hoje, diante de tantas coisas a fazer, e a ânsia no peito para abraçar o mundo, a autora ficou em casa para tentar se organizar em meio ao caos, quando cai em suas mãos um texto feito por sua esposa quando de sua morte e teve a certeza, mais uma vez, de que nada é por acaso acreditem vocês ou não:



terça-feira, 24 de novembro de 2009

Em meio à tempestade,

você chegou bem perto e quase que sussurando me disse:  "você vê o mundo com muita poesia. Isso não é bom".

Quiçá esse alguém tenha razão. Fica sem explicação o absurdo pensar, e até sonhar com você que ainda existe em mim.

Mato dragões, enfrento batalhões e sinto não querer chegar até você. Às vezes, acho que é também por isso que me escondo atrás de todas as portas quando te sinto mais perto.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Ela me contou

que um dia, em NY, um mendigo louco, daqueles desvairados que andam por aí falando sozinhos, com as roupas rasgadas, um cachorro na sombra, mendigando de boteco em boteco, divertido sorrindo a toa em sua desgraça e fedidos como o pior esgoto de São Paulo, viu que ela era a única que lhe dava certa atenção disfarçadamente com o olhar, e não hesitou em gritar: "Smile! Smile! And the world will be yours!", enquanto ela passava.

Obviamente, nin-guém na rua entendeu.



Sorria! Sorria! E o mundo será seu!

E eu? Ah, eu guardei a sete chaves.

sábado, 14 de novembro de 2009

Era uma vez Cinzeiros Cheios e Copos Vazios...

...O Preço,

Olhou preguiçosamente para o despertador que marcava seis horas e vinte minutos da madrugada. Levantou, foi até a cozinha e passou um café fresco. Ao invés de pegar o jornal como de costume, resolveu ligar a tevê no noticiário da manhã. Sentou-se na beira da cama e ali ficou a assistir por alguns minutos. Logo depois, cansou-se de tantos delírios e resolveu arrumar a cama, abrir as janelas, deixar o sol entrar, lavar o rosto, escovar os dentes e dar um rumo na vida.
Como se escovar os dentes e lavar o rosto mudasse algo no reflexo que veria no espelho, jogou a água que julgou bendita na face, e olhou os respingos. Continou a olhar. Nada via de incomum, apenas os respingos. Uma das coisas que gostaria de mudar era sua capacidade de dizer sim e a de não dizer não. O equilíbrio dessas palavras em sua vida não existe.
Ouviu certa vez, que muitos nãos custam um único sim durante uma vida. Achou muito sábio, mas não era o tipo de filosofia que conseguiria se adequar rapidamente. Sempre deixa tudo para depois. Então, que diferença faria esperar calmamente pelo dia em que irá acordar e dizer, 'não. Agora não' em frente aos respingos no espelho? O preço que se paga por um não é tão caro quanto um sim.
Lembrou-se de ter deixado umas gotas de café caírem sobre umas folhas em sua escrivaninha, e pensou, 'mais vale uma escolha mal feita, do que uma escolha não feita'. Estaria disposto a pagar? E pensou: 'tem dias em que é melhor se fechar'.
Fechou todas as cortinas, desligou a tevê, desarrumou a cama, olhou para o relógio que marcava sete horas e vinte minutos e voltou a dormir.

Aqui tem mais, ó cinzeiroscheioscoposvazios

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O Fernando fala muito da minha Pessoa

No entardecer dos dias de verão, às vezes
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria.

Ah, os sentidos, os doentes que veem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão
Bastar-nos-ia sentir com clareza a vida
E nem repararmos para que há sentidos.

Mas graças a Deus que há imperfeição no mundo
Porque a imperfeição é uma coisa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma coisa a menos,
E deve haver muita coisa
Para termos muito que ver e ouvir
(Enquanto os olhos e ouvidos não se fecham).

Fernando Pessoa -ou melhor dizendo-, Alberto Caeiro em uma das páginas de seus poemas completos.

domingo, 1 de novembro de 2009

22:30 - Um péssimo horário para morrer

“Tudo exatamente como planejei. Tudo exatamente como eu planejei. Sabe o que acontece agora que matei? Matarei. Matarei. Matarei. Matarei”.
Matanza – Matarei


Cansados, exaustos, impacientes, frenéticos, preocupados e ansiosos em uma sexta-feira (30), véspera de feriado em São Paulo. Feriado este, em homenagem àqueles que já se foram, aos chamados, finados, enfim. Uma espécide de celebração à nostalgia do fim.
Sentados, queriam chegar em casa, quando todas as luzes se apagaram com o trem ainda em movimento. De súbito, as portas abriram e as únicas luzes que restaram foram as da estação. A curiosidade por saber o que estava a acontecer foi imensa. 

Só sei do que vi
A música parou de tocar nos ouvidos; os pés ficaram inquietos; as mãos começaram a suar frio; as bolsas e mochilas foram apertadas ao corpo; as conversas foram deixadas pela metade; o medo do desconhecido e os outros sentidos foram atiçados. A única coisa que se fazia sabida era a de que todos ali queriam chegar em casa, sãos e salvos. De repente um sinal, e a luz-no-fim-do-túnel: “atenção! Estamos parados devido à presença de usuário na via na estação à frente, Anhangabaú”. Todos, mesmo que inconsciente, soltaram um coro que inspirou metade tristeza e metade indignação. Como pode um peixe vivo viver fora da água fria? Tsc, tsc.

Em respeito ao fim
Maria de Lourdes, 57 anos, resmungou o tempo todo: “não poderia ser pior? Trabalhei o dia inteiro, aguentei chefe na minha orelha, cobri o plantão de duas pessoas e ainda tenho que enfrentar isso para ir embora? É um absurdo! Pode até se matar, mas não estraga a vida dos outros, né?”.
O caos instaurou-se. De tanto que foi, o riso no rosto das pessoas era inerente à situação. Não havia mais solução. Nenhum trem passou e a estação ficou lotada. Só rindo para não chorar. Ficaram a mercê de uma voz que pronunciava de cinco em cinco minutos calmamente: “senhores usuários, estamos circulando com velocidade reduzida, devido a presença de usuário na via”. Às vinte e duas horas e trinta minutos de uma sexta-feira, véspera de feriado. Definitivamente, um péssimo horário para morrer. Mas quem é Deus, afinal, não é? Às vinte e três horas e quarenta minutos, a normalidade voltou. Claro, em respeito ao finado fim.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Espiritualidade

As pessoas paradas em pé escutavam suas próprias músicas, mergulhadas em seus únicos pensamentos. Enquanto ela, a menina -com cara de mulher- lia atentamente: "suponhamos que existisse no universo um planeta no qual fosse possível nascer uma segunda vez. Ao mesmo tempo, nos lembraríamos perfeitamente da vida que tínhamos levado na Terra; de toda experiência que teríamos aqui adquirido. Talvez existisse um planeta em que se nascesse uma terceira vez, com experiência de duas vidas já vividas".
Lembrou de sábado à noite, quando estava sentada na calçada de madrugada com amigos, ouvir um taxista de cabelos brancos dizer:  
-"a vida acaba aqui? Ué, então vamos matar, roubar, fazer de tudo, não é? É assim que eles pensam. É fácil demais usufruir de um pensamento desse. Para que fazer o bem, então? Se fosse assim, exatamente assim, não teria um porquê".
E continuou a ler: e, talvez, um outro planeta e outros mais, em que a espécie humana renasceria, subindo cada vez um degrau a mais (uma vida) nas escala do amadurecimento. Era essa a ideia que Tomas fazia do eterno retorno". 

"Nós, aqui na Terra (no planeta número um, no planeta da inexperiência), podemos ter apenas uma ideia muito vaga daquilo que acontece com o homem nos outros planetas. Teria ele mais sabedoria? Estaria a maturidade a seu alcance? Poderia atingi-la através da repetição?", e suspirou "...o otimista é aquele que acredita que a história humana será menos sangrenta no planeta número cinco. O pessimista é aquele que não acredita nisso".

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Des-gosto

Agosto passou. Finalmente!
Não. Finalmente coisa-nenhuma.
Agosto passou e deixou em Setembro
o (des)gosto de ter que passar por Agosto.
Está aberta a caça às Bruxas
e a tudo de sobrenatural.
Bichos escrotos, voltem para o esgoto.
Homens primatas, voltem para suas cascas.
E não. Não é Halloween. Ainda.
É só Agosto.
E o resto de um Des-gosto.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Verde que te quero ver

-Você já procurou o significado da palavra "verde" no dicionário?
-Não.
Ver.de
(ê) adj 2 gên 1. Diz-se da cor que resulta da combinação do azul com o amarelo; 2. da cor das ervas; 3. diz-se da planta que ainda tem seiva, não está seca, e do fruto que ainda não está maduro; 4. diz-se da carne fresca; 5. diz-se de uma qualidade de vinho ácido; 6. fig que ainda não se desenvolveu completamente; 7. que se refere aos primeiros anos da existência; 8. forte, vigoroso; 9. inexperiente; 10. tenro, mimoso, débil; sm 11. a cor verde.
-Agora leia como se não tivessem pontos, siglas, e veja o que acontece.
Verde
: diz-se da cor que resulta da combinação do azul com o amarelo, da cor das ervas. Diz-se da planta que ainda tem seiva, não está seca, e do fruto que ainda não está maduro. Diz-se da carne fresca. Diz-se de uma qualidade de vinho ácido, daquilo que ainda não se desenvolveu completamente, àquilo que se refere aos primeiros anos da existência. Forte, vigoroso, inexperiente, tenro, mimoso, débil. A cor verde!
-Nossa!
-É. Não parece uma poesia?